"Projeto de Literatura"


Poemas do Romantismo

  O Poeta - Álvares de Azevedo
  Despedidas à ... - Álvares de Azevedo
  Lembrança de Morrer - Álvares de Azevedo
  Meu anjo - Álvares de Azevedo
  Adeus, meus sonhos! - Álvares de Azevedo
  Anjos do Mar - Álvares de Azevedo
  Navio Negreiro (excerto) -Castro Alves

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O Poeta

Era uma noite – eu dormia

E nos meus sonhos revia

As ilusões que sonhei!

E no meu lado senti...

Meu Deus porque não morri?

Por que do sono acordei?

No meio do leito – adormecida,

Palpitante a abatida,

A amante do meu amor!

Os cabelos recedendo

Nas minhas faces correndo

Como o luar numa flor!

Senti-lhe o colo cheiroso

Arquejando sequioso;

E nos lábios, que entr’abria

Lânguida respiração,

Um sonho do coração

Que suspirando morria!

Não era um sonho mentindo;

Meu coração iludido

O sentiu e não sonhou:

E sentiu que se perdia

Numa dor que não sabia...

Nem ao menos a beijou!

Soluçou o peito ardente,

Sentiu que a alma demente

Lhe desmaiava a tremer:

Embriagou-se de enleio,

No sono daquele seio

Pensou eu ele ia morrer!

Que divino pensamento,

Que vida num só momento

Dentro do peito sentiu...

Não sei ... Dorme no passado

Meu pobre sonho doirado...

Esperança que mentiu!

Sabem as noites do céu

E as luas brancas sem véu

As lágrimas que eu chorei!

Contem do vale as florinhas

Essa amor das noites minhas!

Elas sim ... eu não direi!

E se eu tremendo, senhora,

Viesse pálido agora

Lembrar-vos o sonho meu,

Com a fronte descorada

E com a voz sufocada

Dizer-vos baixo – Sou eu!

Sou eu! Que não esqueci

A noite que não dormi,

Que não foi uma ilusão!

Sou eu que sinto morrer

A esperança de viver...

Que o sinto no coração!

Riríeis das esperanças,

Das minhas loucas lembranças,

Que me desmaiam assim?

Ou então, de noite, a medo

Choraríeis em segredo

Uma lágrima por mim?

(Álvares de Azevedo)

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Despedidas à ...

Se entrares, ó meu anjo, alguma vez

Na solidão onde eu sonhava em ti,

Ah! Volta uma saudade aos belos dias

Que a teus joelhos pálidos vivi!

Adeus minh’alma, adeus! Eu vou chorando ...

Sinto o peito doer na despedida...

Sem ti o mundo é um deserto escuro

E tu és minha vida...

Só por teus olhos eu viver podia

E por teu coração amar e crer,

Em teus braços minha alma unir à tua

E em teu seio morrer!

Ma s se o fado me afasta da ventura,

Levo no teu coração a tua imagem...

De noite mandarei – te os meus suspiros

No murmúrio da aragem!

Quando a noite vier saudosa e pura,

Contempla a estrela do pastor nos céus,

Quando a ela eu volver o olhar em prantos

Verei os olhos teus!

Mas antes de partir, antes que a vida

Se afogue numa lágrima de dor,

Consente que em teus lábios num só beijo

Eu suspire de amor!

Sonhei muito! Sonhei noites ardentes

Tua boca beijar eu o primeiro!

A ventura negou-me ... Até mesmo

O beijo derradeiro!

Só contigo eu podia ser ditos,

Em teus olhos sentir os lábios meus!

Eu morro de ciúme e de saudade;

Adeus, meu meu anjo, adeus!

(Álvares de Azevedo)

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Lembrança de Morrer

Quando em meu peito rebentar-se a fibra

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nem uma lágrima

Em pálpebra demente

E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio

Do deserto, o poento caminheiro

Como as horas de um longo pesadelo

Que se desfaz ao dobre de um sineiro

Como o desterro de minha alma errante,

Onde o fogo insensato a consumia:

Só levo uma saudade é desses tempos

Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade é dessas sombras

Que eu sentia velar nas noites minhas

De ti, ó minha mãe, pobre coitada

Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai ... de meus únicos amigos,

Poucos, bem poucos, e que não zombavam

Quando, em noite de febre endoidecido,

Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,

Se um suspiro nos seios treme ainda

É pela virgem que sonhei ... que nunca

Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores...

Se viveu, foi por ti! E de esperança

De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,

Verei cristalizar-se o sonho amigo...

Ó minha virgem dos errantes sonhos,

Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário

Na floresta dos homens esquecida,

À sombra de uma cruz, e escrevam nela:

Foi poeta, sonhou e amou a vida.

Sombras do vale, noites de montanha

Que minha alma cantou e amava tanto

Protegei o meu corpo abandonado,

E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave da aurora

E quando à meia-noite o céu repousa,

Arvoredos do bosque, abri os ramos...

Deixai a lua prantear-me a lousa!

(Álvares de Azevedo)

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Meu anjo

Meu anjo tem o encanto, a maravilha

Da espontânea canção dos passarinhos

Tem os seios tão alvos, tão macios

Como o pêlo sedoso dos arminhos.

Triste de noite na janela a vejo

E de seus lábios o gemido escuto

É leve a criatura vaporosa

Como a frouxa fumaça de um charuto.

Parece que até sobre a fronte angélica

Um anjo lhe depôs coroa e nimbo...

Formosa a vejo assim entre meus sonhos

Mais bela no vapor do meu cachimbo.

Como o vinho espanhol, um beijo dela

Entorna ao sangue a luz do paraíso

Dá morte num desdém, num beijo vida,

E celestes desmaios num sorriso!

Mas quis a minha sina que seu peito

Não batesse por mim nem um minuto,

E que ela fosse leviana e bela

Como a leve fumaça de um charuto!

(Álvares de Azevedo)

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Adeus, meus sonhos!

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!

Não levo da existência uma saudade!

E a tanta vida que meu peito enchia

Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! Votei meus pobres dias

À sina douda de um amor sem fruto,

E minha alma na treva agora dorme

Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus? Morra comigo

A estrela de meus cândidos amores

Já que não levo no meu peito morto

Um punhado sequer de murchas flores!

(Álvares de Azevedo)

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Anjos do Mar

As ondas são anjos que dormem no mar,

Que tremem, palpitam, banhados de luz...

São anjos que dormem, a rir e sonhar

E em leito d’escuna revolvem-se nus!

E quando de noite vem pálida a lua

E seus raios incertos tremer, pratear,

E a trança luzente da nuvem flutua,

As ondas são anjos que dormem no mar!

Que dormem, que sonham – e os ventos dos céus

Vem tépido à noite dos seios beijar!

São meigos anjinhos, são filhos de Deus,

Que ao fresco se embalam no seio do mar!

E quando nas águas do vento suspiram,

São puros fervores de ventos e mar:

São beijos que queimam ... e as noites deliram,

E os pobres anjinhos estão a chorar!

Aí! Quando tu sentes os mares na flor

Os ventos e vagas gemer, palpitar,

Por que não consentes, num beijo de amor,

Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar?

(Álvares de Azevedo)

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Navio Negreiro (excerto)

Stamos em pleno mar (...)

Era um sonho dantesco ... o tombadilho,

Que das luzernas avermelha o brilho,

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros ... estalar de açoite ...

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães

Outras, moças ... mas nuas, espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs.

E ri-se a orquestra, irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais...

Se o velho arqueja ... se no chão resvala,

Ouvem-se gritos ... o chicote estala.

E voam mais e mais ...

Presa dos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece...

Outro, que de martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!

No entanto, o capitão manda a manobra

E após, fitando o céu que se desdobra

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar! ..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais!

Qual num sonho dantesco as sombras voam...

Grito, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!...

Lá nas areias infindas,

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura ... se é verdade

Tanto horror perante os céus...

Ó mar, por que não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão? ...

Astros! Noite! Tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!...

Quem são estes desgraçados

Que não encontram em vós

Mais que rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são? ... Se a estrela se cala,

Se a vaga à pressa resvala

Como um cúmplice fugaz,

Perante a noite confusa...

Dize-o tu, severa musa,

Musa libérrima, audaz!

São os filhos do deserto

Onde a terra esposa a luz,

Onde voa em campo aberto

A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados,

Que com tigres mosqueados

Combatem na solidão...

Homens simples, fortes, bravos...

Hoje míseros escravos

Sem ar, sem luz, sem razão...

São mulheres desgraçadas

Como Ágar o foi também.

Que sedentas, alquebradas,

De longe ... bem longe vêm...

Trazendo com tíbios passos

Filhos e algemas nos braços,

N’alma – lágrimas e fel

Como Ágar sofrendo tanto

Que nem leite do pranto

Tem que dar para Ismael...

Das palmeiras no país,

Nasceram – crianças lindas,

Viveram – moças gentis...

Passa um dia a caravana

Quando a virgem na cabana

Cisma das noites nos véus...

... Adeus ! ó choça do monte! ...

... Adeus ! palmeiras da fonte! ...

... Adeus ! amores ... adeus! ...

(...)

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se eu deliro ... ou se é verdade

Tanto horror perante os céus...

Ó mar, por que não apagas

Co’a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?

Astros! Noite! Tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!...

E existe um povo que a bandeira empresta

Pra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! Meu Deus1 mas que bandeira é esta,

Que imprudente na gávea tripudia?! ...

Silêncio! ... Musa! Chora, chora tanto

Que o pavilhão se lave no seu pranto...

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra,

E as promessas divinas da esperança...

Tu, que da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança,

Foste hasteado dos heróis na lança,

Antes que houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brique imundo

O trilho que Colombo abriu na vaga,

Como um íris no pélago profundo!...

... Mas é infâmia demais ... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo...

Andrada! Arranca este pendão dos ares!

Colombo! Fecha a porta de teus mares!

(Castro Alves)

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